terça-feira, 28 de setembro de 2021

A PITONISA DE ENDOR



Introdução

O assunto é de fato controverso e tem colocado diversos comentaristas renomados em lados opostos. Há quem defende que Deus autorizou e enviou o espírito de Samuel para participar daquilo que seria uma sessão espírita, outros os que entendam como uma narrativa autorizada por Deus no cânon sagrado e outros ainda acredita tratar-se de um fenômeno movido pelo êxtase espiritual ou por efeito de alucinógenos. Afinal, Deus autorizou Samuel voltar dos morto e participar de uma prática que Ele mesmo condenara, a mulher estava movida por um êxtase mediúnico e viu um demônio ou tratava-se de um fenômeno psíquico sob efeito de alguma substância? 

Os Personagens

Saul – filho de Quiz, da tribo de Benjamin, era pastor de jumentas. Foi separado e anunciado pelo profeta Samuel quando o povo pediu um rei e diz as Escrituras que Deus deu um rei na sua ira (Os. 13.11). Era um período de transição depois de 300 anos desde os dias de Josué, o tempo dos juízes. Lemos em Js. 13. 1 “Já estás velho e avançado em dias e ainda muitíssima terra ficou para possuir”, seguido no v2 de uma enorme relação de terras que não haviam sido conquistadas. Nessas terras permanecia os nativos da terra com os seus costumes, seus cultos e comportamentos religiosos pagãos, que fizeram Israel tropeçar através da idolatria nos montes e das práticas espirituais como a feitiçaria, a adivinhação e a consulta aos mortos, entre outros O primeiro monarca de Israel havia começado bem, porém não tardou a desobedecer a Deus e andar em seus próprios caminhos (I Sm. 15.11), motivo pelo qual era atormentado por um espírito maligno com o consentimento do Senhor. O cântico das mulheres que exaltavam Davi ao sair para as pelejas encheu o coração do rei de inveja que, tomado por esse sentimento passou a perseguir Davi, intentando matá-lo. Porém, o que causou o desprezo de Deus por Saul e a sua rejeição completa foi o episódio onde deveria exterminar os amalequitas e não o fez (I Sm. 15.9, 23, 26; 16.1). As palavras de Samuel são contundentes: “O Senhor. Tem rasgado de ti hoje o reino de Israel, e o tem dado ao teu próximo melhor do que tu” (I Sm. 15.28). Após a morte de Samuel, Saul temendo o exército dos filisteus (I Sm. 28.5), buscou ao Senhor e não obteve respostas pelos meios de comunicação estabelecidos com o divino (I Sm. 28.6), a saber, sonhos, Urim (e Tumin) e profetas (videntes). Assim, resolveu apelar para a invocação dos mortos, buscando uma resposta no defunto Samuel através da consulta a uma pitonisa. 

Os Servos de Saul – não sabemos o nome dos servos do rei que indicaram a pitonisa e nem dos outros dois que o levaram até ela em En-Dor, uma região próxima a Gate-Hefer, no Vale de Jezreel, próximo ao Monte Tabor, tendo o Outeiro de Moré ao sul. O fato de saberem onde encontrá-la pode revelar certa crença nessa prática reprovável e condenada por Deus em sua Lei (Dt. 18.9-12, uma vez que o seu senhor havia mandado banir ou exterminar todas as feiticeiras de seu reino (I Sm. 28.9).

A Pitonisa – Uma mulher cuja atividade era invocar os espíritos dos que morreram mais conhecida como necromancia: “suposta previsão do futuro através da comunicação dos espíritos dos mortos” (Dicionário Aurélio Online). Essa mulher praticava a arte mágica e adivinhatória de forma clandestina, porque o próprio Saul havia proibido tais invocações. O nome pitonisa vem de Pitom, termo grego empregado para designar o dragão ou serpente mitológicos, que guardava o oráculo de Delfos, morta por Apolo. Por essa razão todo indivíduo que profetizasse por inspiração de Apolo, falava com a boca fechada (1), ou seja, sibilava, tal qual se vê no ventriloquismo. 

O QUE DIZ O ESPIRITISMO

O espiritismo usa esse episódio na vida de Saul para justificar a necromancia, isto é, a consulta aos mortos, afirmando que a própria Bíblia chancela os seus ensinamentos. Aliás, uma das formas de invocação aos espíritos dos mortos para a comunicação com o seu mundo é a psicografia, tão difundida pelo médium Chico Xavier. Alegam que Mateus 17 de igual modo afirmam que tal doutrina é confirmada no aparecimento de Moisés e Elias no Monte chamado da transfiguração. Alegamos que em nenhum momento Jesus invocou os mortos e que Elias de fato não morreu, sendo trasladado, e que a morte de Moisés está envolta em mistérios uma vez que o senhor Deus escondeu o seu corpo e não foi achado a ponto de Lúcifer reclamar o seu corpo, o que seria outro tema difícil. Concluímos que o Senhor Jesus ao descer do Monte advertiu os discípulos que não contassem a visão. Assim, nem o texto de I Samuel 28 e nem o de Mateus 17 servem de base para quaisquer doutrinas dos espíritas.

O QUE DIZ A LEI E OS PROFETAS?

“A feiticeira não deixarás viver”. (Êx. 22.18)

“Não se achará entre ti quem faça passar pelo fogo o seu filho ou a sua filha, nem adivinhador, nem prognosticador, nem agoureiro, nem feiticeiro; nem encantador, nem necromante, nem mágico, nem quem consulte os mortos; pois todo aquele que faz tal coisa é abominação ao SENHOR; e por estas abominações o SENHOR, teu Deus, os lança de diante de ti”. (Dt. 18.9-12)
“Quando alguém se virar para os necromantes e feiticeiros, para se prostituir com eles, eu me voltarei contra ele e o eliminarei do meio do seu povo”. (Lv. 20.6)
“O homem ou mulher que sejam necromantes ou sejam feiticeiros serão mortos; serão apedrejados; o seu sangue cairá sobre eles”. (Lv. 20.27)
“Porque a rebelião é como o pecado de feitiçaria, e a obstinação é como a idolatria e culto a ídolos do lar. Visto que rejeitaste a palavra do SENHOR, ele também te rejeitou a ti, para que não sejas rei.” (I Sm. 15.23)
“E queimou a seu filho como sacrifício, adivinhava pelas nuvens, era agoureiro e tratava com médiuns e feiticeiros; prosseguiu em fazer o que era mau perante o SENHOR, para o provocar à ira”. (II Re. 21.6)
“Aboliu também Josias os médiuns, os feiticeiros, os ídolos do lar, os ídolos e todas as abominações que se viam na terra de Judá e em Jerusalém, para cumprir as palavras da lei, que estavam escritas no livro que o sacerdote Hilquias achara na Casa do SENHOR.” (II Re. 23.24,25)
“queimou seus filhos como oferta no vale do filho de Hinom, adivinhava pelas nuvens, era agoureiro, praticava feitiçarias, tratava com necromantes e feiticeiros e prosseguiu em fazer o que era mau perante o SENHOR, para o provocar à ira”. (II Cr. 33.6)
“Quando vos disserem: Consultai os necromantes e os adivinhos, que chilreiam e murmuram, acaso, não consultará o povo ao seu Deus? A favor dos vivos se consultarão os mortos? À lei e ao testemunho! Se eles não falarem desta maneira, jamais verão a alva”. (Is. 8.19,20)
“e dize: Assim diz o SENHOR Deus: Ai das que cosem invólucros feiticeiros para todas as articulações das mãos e fazem véus para cabeças de todo tamanho, para caçarem almas! Querereis matar as almas do meu povo e preservar outras para vós mesmas?… Portanto, assim diz o SENHOR Deus: Eis aí vou eu contra vossos invólucros feiticeiros, com que vós caçais as almas como aves, e as arrancarei de vossas mãos; soltarei livres como aves as almas que prendestes”. (Ez. 13.18-20)
“Chegar-me-ei a vós outros para juízo; serei testemunha veloz contra os feiticeiros, e contra os adúlteros, e contra os que juram falsamente, e contra os que defraudam o salário do jornaleiro, e oprimem a viúva e o órfão, e torcem o direito do estrangeiro, e não me temem, diz o SENHOR dos Exércitos”. (Ml. 3.5)
“eliminarei as feitiçarias das tuas mãos, e não terás adivinhadores”. (Mq. 5.12)
“Assim, morreu Saul por causa da sua transgressão cometida contra o SENHOR, por causa da palavra do SENHOR, que ele não guardara; e também porque interrogara e consultara uma necromante e não ao SENHOR…” (I Cr. 10.13,14)
O QUE DIZ O NOVO TESTAMENTO?
“Ora, as obras da carne são conhecidas e são: prostituição, impureza, lascívia, idolatria, feitiçarias, inimizades, porfias, ciúmes, iras, discórdias, dissensões, facções, invejas, bebedices, glutonarias e coisas semelhantes a estas, a respeito das quais eu vos declaro, como já, outrora, vos preveni, que não herdarão o reino de Deus os que tais coisas praticam”. (Gl. 5.19-21)
“Quanto, porém, aos covardes, aos incrédulos, aos abomináveis, aos assassinos, aos impuros, aos feiticeiros, aos idólatras e a todos os mentirosos, a parte que lhes cabe será no lago que arde com fogo e enxofre, a saber, a segunda morte.” (Ap. 21.8) 
Fora ficam os cães, os feiticeiros, os impuros, os assassinos, os idólatras e todo aquele que ama e pratica a mentira.” (Ap. 22.15)
“Os outros homens, aqueles que não foram mortos por esses flagelos, não se arrependeram das obras das suas mãos…, ainda se arrependeram dos seus assassínios, nem das suas feitiçarias, nem da sua prostituição, nem dos seus furtos.” (Ap.9.20,21)

O QUE DIZEM OS PAIS DA IGREJA, OS REFORMADORES E OS ESTUDIOSOS?
Até mesmo entre os Pais da Igreja, os Reformadores e os grandes nomes recentes da pregação e do ensino, não há consenso quanto ao assunto. A seguir uma relação dos que acreditavam na realidade do aparecimento de Samuel e dos que não acreditavam.

SAMUEL APARECEU
Justino Mártir, Orígenes, Metódio, Zeno de Verona, Diodoro de Tarso, Apolinário de Laodiceia, Ambrósio, Agostinho, Sulpicius Severus, Evódio, Dracontius, John Wesley, Adam Clarck, Chales Hodge, Ellicott, G. Campbel Morgan.

SAMUEL NÃO APARECEU
Tertuliano, Hipólito, Eustáquio de Antioquia, Efraim, Basílio, Gregório de Nissa, Jerônimo, Evagrius Ponticus, João Crisóstomo, Cirilo de Alexandria, Teodoreto, Lutero, Calvino, Matthew Henry, John Gill. (2)

ANALISANDO O TEXTO E SEU CONTEXTO

O texto bíblico nos informa que Saul não obtinha resposta de Deus nem por meio de sonhos, urim e nem pelos profetas. Sempre que buscava uma resposta do Senhor, ia ao encontro de Samuel, que o havia separado e ungido. Samuel sentia-se responsável por Saul e tinha dó dele, mas o rei já havia sido rejeitado por Deus e não buscava ao Senhor Deus de Samuel, querendo apenas uma direção para tomar decisões e não perder o reino. A Bíblia não mostra Saul tendo uma vida de oração e dependência de Deus, mas um homem inseguro, medroso que procurou por respostas que Deus se negava a dá-las. Daí recorrer ao abominável expediente de consultar ao morto Samuel.
O fato de Saul procurar por uma pitonisa revela que ele próprio acreditava nesse tipo de comunicação. O mesmo dominava o pensamento e as crenças de seus servos, que sabiam onde encontrar uma pitonisa e levá-lo até ela. 
Ao chegar à noite na casa da feiticeira em En-Dor, o rei disfarçado foi direto ao ponto “Peço-te que me adivinhes pelo espírito de feiticeira e me faças subir a quem eu disser” (I Sm. 28.8 – ACF). A mulher argumenta no versículo 9 que está havendo uma “perseguição religiosa” naqueles dias, que essa prática é considerada ilegal no reino de Saul e que eles correm risco de vida se isso for descoberto. O rei, sem nenhum temor, faz juramento pelo Senhor que nada acontecerá àquela mulher (v.11). 
Aqui, no versículo 11, começa o problema de toda a questão: “A quem te farei subir?” pergunta a mulher e ele responde: “Faze-me subir a Samuel”. E no versículo 12, o escritor desse texto em particular, afirma que a mulher viu Samuel, gritou em alta voz e reconheceu o rei Saul. E mais: no versículo 15 diz: “Samuel disse a Saul…”, no versículo 16 “Então disse Samuel...” e no versículo 20: “… Saul (…) temeu por causa daquelas palavras de Samuel”.
E agora? Como explicar que Deus tenha respondido a Saul por meio de uma prática ilegal (contrária à Lei), abominável (detestável por Ele) e tudo isso depois de negar-lhe resposta por sonhos, urim e profetas?
Primeiro – o Senhor Jesus em Lucas 16. 19-31, na história e não parábola do Rico e do Lázaro (uma vez que parábola alguma contém nomes próprios), ensina que é impossível a comunicação com os mortos e Hb. 9.27 afirma que ao homem está ordenado morrer apenas uma vez e que após a morte segue-se o juízo. Assim, os mortos não voltam e nem se comunicam com os vivos.
Segundo – Em nenhum momento o ser invocado disse ser o profeta Samuel. Nem a própria vidente afirma tratar-se de Samuel. A mulher viu um homem envolto numa capa e deduziu que seria Samuel. A pitonisa começou a falar com o monarca como se fora Samuel e este aceitou como verdade inconteste.
Terceiro – Nem Saul e nem seus servos nada viram ou ouviram. Isso está claro na sua expressão e pergunta: “Não temas; que é que vês?” (v.13). A mulher era a intérprete entre ele e o o suposto Samuel.
Quarto – No versículo 14 esclarece “...Entendendo Saul que era Samuel”, (“Então Saul deduziu que era Samuel” BKJ), ou seja, Saul, deixou-se levar pelo seu desejo de falar com o profeta, pelo entorno, pelo pano de fundo montado: “homem”, “ancião”, “envolto numa capa”. Estava, podemos dizer autossugestionado, propenso a crer em tudo aquilo que estava acontecendo ao seu redor. 
Quinto – Não podemos esquecer que o início da sessão o rei pediu para que subisse Samuel. O filho de Ana, aquele que percorria o reino de Israel, ainda unido, desde Dã até Berseba, era conhecido por todos os habitantes daquela região e mesmo o mais simples dos homens saberia que Samuel já era um ancião e que, como todo profeta, usava uma capa. Pronto, o palco estava montado.
Quinto – Satanás, o pai da mentira (Jo. 8.44), é ardiloso e sabe como enganar os anjos (Jó 1 e 2) quanto mais os homens (II Co. 11. 14,15). Em II Re. 22.22 e I Cr. 18.5, um espírito de dispõe a ser um mensageiro de mentira na boca dos profetas. 
Sexto – O fato de o suposto Samuel falar as palavras que o verdadeiro Samuel falara não justifica a real presença do espírito de Samuel naquela sessão. Satanás também citou trechos das Escrituras para Jesus na tentação no deserto. E mais: a Bíblia King James cita “espíritos familiares”.
Sétimo – O suposto Samuel afirma que Saul e seus filhos morreriam no dia seguinte e que eles estariam com ele. É certo que eles morreram no dia seguinte, mas não todos. Também não podemos aceitar que Saul seria enviado para o mesmo lugar onde estava o profeta Samuel (há uma ressalva compreensível aqui, caso a expressão “lugar” venha ser uma referência generalizada ao Sheol/Hades, região e morada dos mortos. 
Oitavo – O narrador ou escritor desse trecho das Escrituras, estava presente, provavelmente um dos servos que acompanhavam Saul, que crendo registra ou espalha a notícia que Samuel de fato apareceu. 

CONCLUSÃO:

Não são poucos os que defendem que o espírito de Samuel realmente apareceu ali, entre eles podemos citar Augustus Nicodemus, Reverendo Presbiteriano e Ex-chanceler da Universidade Presbieriana Mackenzie, advogando que o que está em foco ali é o estado de penúria do rei e que Deus permitiu aquilo tudo para que Saul sentisse a sua culpa e o seu estado miserável. 
Igualmente não são poucos os que defendem o contrário: Warrem W. Wiersbe, em seu Comentário Bíblico do Antigo Testamento, nas páginas 302 e 303, afirma que jamais Deus poderia autorizar Samuel e participar de tal reunião, pois iria de encontro à sua própria lei e proibições e que não foi o espírito de Samuel que apareceu em En-Dor.
“Em sua Teologia Sistemática, Louis Berkhof deixa transparecer sua crença na aparição de Samuel. O dr. Norman Geisler, em seu livro Resposta às Seitas Um Manual Popular Sobre as Interpretações Equivocadas das Seitas, apenas apresenta as três interpretações que são dadas a 1Samuel 28, porém sem dar sua opinião pessoal sobre o assunto. E o irmão Josh McDowell não tem uma opinião formada sobre esse assunto” (3)
Não cremos que Deus tenha autorizado o espírito de Samuel retornar dentre os mortos para ser partícipe dessa sessão espírita. Agindo assim, Ele iria contra todos os seus princípios e infringiria as suas próprias leis e estatutos no que diz respeito às práticas pagãs de idolatria, adivinhação, necromancia, etc. Ora se Deus não falava com Saul nem por sonhos, profetas ou Urim e Tumim, falaria por um meio reprovável?
Cremos que o escritor ou narrador desse episódio, o construiu com base em suas próprias crenças e que Deus permitiu que isso fosse registrado no cânon sagrado para que víssemos o estado deplorável a que pode chegar um homem que perdeu o temor de Deus.

Abraço a todos.

Pr. Guedes.

(1) O Novo Dicionário da Bíblia, ed Vida Nova, pg.1288, citando Plutarco.
(2) Quem Falou com o Rei Saul em En-Dor?, Araújo de, Paulo Sérgio, p. 6, citado no site: https://www.imortalidadedaalma.com/wp-content/uploads/Saul-e-a-pitonisa-de-En-Dor-Compreendendo-1Samuel-282.pdf

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