segunda-feira, 29 de dezembro de 2014

UMA CRÍTICA AO FILME BÍBLICO EXODUS: GODS AND KINGS


Por Gutierres Fernandes Siqueira

O filme Exodus: Gods and Kings (EUA, Reino Unido, Espanha; 2014) do aclamado diretor Ridley Scott é um pouco decepcionante. Atenção: eu não esperava um filme bíblico, logo porque Scott não nos prometeu isso. E, não é de hoje, eu não espero exegese e hermenêutica de Hollywood e acho uma bobagem essa gritaria de muitos cristãos-evangélicos- ponto final. O diretor há dias já vinha falando que a produção seria um filme de ação. E como ação é um bom filme de efeitos especiais. Então você pode perguntar: por que a decepção? Ora, o roteiro e adaptação são fracos. É claro que a licença poética para complementar e até adaptar a história bíblica poderia ser bem melhor. É nesse ponto que Scott estraga a história.

A narrativa sobre a vida de Moisés é uma das mais completas e ricas do Antigo Testamento. Sendo assim a produção tinha o desafio de montar um roteiro que fosse mais interessante do que a já complexa história do profeta. E isso não aconteceu. Ridley Scott é um grande diretor e, na minha visão, Gladiador (EUA, Reino Unido; 2000) é um glorioso exemplo. Agora, alguns de seus filmes como Exodus e Robin Hood (EUA, Reino Unido; 2010) deixam - ou deixaram- essa sensação de “poderia ter sido bem melhor”.

Ridley Scott é ateu. O filme é uma homenagem ao irmão e também diretor Tony Scott (1944- 2012) que cometeu suicídio ao pular da Ponte Vincent Thomas em Los Angeles, Estados Unidos. Tony era religioso e Ridley queria prestar uma homenagem. Bom, se eu fosse o irmão religioso dele não ficaria tão feliz com a descrição de Deus, que mais parece o demiurgo, feita pelo diretor não-religioso. E é bom lembrar: o mesmo já tinha sido feito no filme Kingdom of Heaven (EUA , Reino Unido , Espanha , Alemanha; 2005) do Ridley Scott.  
Há dois filmes de ação inteligentes do falecido Tony Scott que gosto muito: Enemy of the State (EUA, 1998) e Spy Game (EUA, Reino Unido; 2001), mas aí é outro assunto... 


Voltando ao Exodus vejamos os pontos positivos e negativos desse longa. E se você ainda não assistiu ao filme, cuidado, o meu comentário está cheio de spoilers.

Pontos fracos

a) O retrato de Deus. Marcião ficaria feliz com esse filme,  pois seria a prova cabal de sua tese: o deus do Antigo Testamento é mau e nada tem com Cristo Jesus. No longa Deus parece mais um ídolo pagão: sempre intempestivo, inconsequente e caprichoso. Usar uma criança para retratar tamanha falta de graça e misericórdia parece ser um recurso proposital para chocar. Aliás, essa criança lembra um dos nomes do Demiurgo: Yaldabaoth, que é "a criança do caos". Não esqueço o comentário da minha irmã ao final do filme: aquele deus-garoto parecia mais com os demônios que atormentavam a Judas Iscariotes no filme The Passion of The Christ (EUA, 2004). No ateísmo de Scott Deus sempre é um sujeito amargo e isso já estava claro no filme Kingdom of Heaven, como dito acima.

b) O duelo de egos.  Resumir a libertação do Egito a um duelo de egos entre o irmão adotivo competente e o irmão legítimo fraco?! Bom, é um Shakespeare com Freud meio água com açúcar. Esse ponto talvez seja o pior do filme.


c) A gritaria contra esse “Deus, o matador de crianças”. Essa cena é simplesmente ridícula. Na hora pensei que os egípcios de 4 mil anos atrás já tinham passado pela modernidade. Seriam leitores de Jean-Jacques Rousseau? Ora, ora, nenhum povo naquele período xingaria uma divindade como “matadora de crianças”, logo porque esse tipo de sensibilidade não fazia parte do discurso religioso e político da época. Aliás, esses povos nem conheciam o conceito de criança como nós conhecemos hoje. Só na Idade Moderna é que a criança ganhou o status de um ser social. Antes era apenas um adulto em miniatura.

Pontos fortes


a) A lei é dada como uma instituição para base do povo israelita. A frase de Deus dizendo que “daria a lei porque líderes vacilam enquanto as pedras permanecem” é simplesmente fantástica. Scott captou muito bem a essência do Decálogo nessa simples cena.

b) A cena do luto noturno no Egito com a morte dos primogênitos. É uma cena forte e ao mesmo tempo que retrata bem o que o texto bíblico quis dizer: “E houve grande pranto no Egito, pois não havia casa que não houvesse um morto” [Êxodo 12.30].

c) A cena onde Faraó exalta sua grandeza entre cadáveres do seu exército. É uma cena bonita, forte e com a velha e boa advertência contra a vacuidade.


É isso. No geral é um filme que merece nota 6. É medíocre não porque não seja bíblico, mas porque substituiu uma história forte por um roteiro mais fraco e até clichê.

Fonte: Blog Teologia Pentecostal

4 comentários:

Cleidiana Goes disse...

Pastor, confesso que a sua critica me deixou mais curiosa para assistir o filme. Eu particularmente acredito que todos os cristãos ( pelo menos aqueles que conhecem um pouco da bíblia) assistem esse tipo de filme com o sensor critico ligado. O que nos mostra que essas "adaptações" não tem nada de cristã e sim uma mera produção hollywoodiana para ganhar dinheiro. Mero engano é quem assisti e acha que é um filme bíblico! A exemplo dessa situação foi a adaptação de Noé, uma bela produção, cheia de efeitos especiais, entretanto cheias de heresias.

Cleidiana Goes disse...

Pastor confesso que a sua critica aguçou mais ainda o meu desejo de assistir ao filme. Acredito que as pessoas que conhecem a bíblia, sempre assistem esses filmes com o sensor critico ligado. Mas também é obvio com base em outras adaptações, que tudo não passa de um espetáculo hollywoodiano onde o conceito de quem é Deus na maioria das vezes é deturpado, não posso dizer se é algo proposital, mas acredito que em todo tipo de arte (cinema, livros, teatro e etc) o autor passa o que ele acredita ser verdade. Por mais que o proposito seja homenagear o irmão, é difícil apresentar um Deus que ele não conhece.

Pastor Guedes disse...

Cleidiana, a paz!!!

Obrigado por acessar meu blog e deixar seu comentário simpático. Apenas gostaria de retificar que o artigo crítico não é meu, mas do meu amigo Gutierres Siqueira, jovem teólogo de São paulo.

Concordo com você. Parece mesmo uma contradição um ateu fazendo um filme sobre um Deus que ele não acredita. Claro está que o objetivo final é outro.

Abraço e Paz!

Lédyce Nóbrega Porto disse...

Compartilho da mesma opinião!