quinta-feira, 25 de novembro de 2010

FILOSOFIA E FAZER DE CONTA

Prezados leitores, o texto a seguir é do meu amigo Samuel Buel, filósofo. Os termos usados pelo nosso amigo é próprio de quem respira filosofia e as vezes tenho que  consultá-lo e perguntar o significado de algumas palavras. Ainda ontem, perguntou se queria que  "aliviasse" e eu disse que não: "Esse é seu jeito de escrever!". Aos que gostam de filosofia como eu, boa leitura, mas não me perguntem nada (rsrsrs). Entrem no blog do Samuel e perguntem para ele.  

Desde os primórdios, se discute as posições conceituais e estruturais relativas aos objetos intramundanos bem como nossa capacidade cognitiva de apreendê-los. De um lado, está a coisa ideática de outro, a coisa empírica. E aí o bicho pega. Como que nós podemos fazer afirmações sobre os objetos que estão ao nosso redor e extrair desses mesmos elementos seus conteúdos verdadeiros para estarmos seguros de que de fato não fizemos de conta?
Neste ambiente dos sentidos, temos tido a necessidade de nos situarmos, e, para isso, desenvolvemos métodos de fazer cálculos, tirar medidas, desenvolver conceitos de altitude, profundidade, largura, extensão e por aí se vai. O cara que escreveu A República vivia no mundo dos sonhos, estava convicto de que apenas as entidades de natureza metafísicas eram autênticas, perfeitas, eternas, imutáveis não sofredoras das ações pertinentes ao ambiente temporo/espacial. Quanto à matéria, esse mesmo autor, nutria um posicionamento oposto. Quando lhe perguntavam qual o valor da matéria, dizia que esta se referia a um mero ente imperfeito sofredora da ação do tempo o que ele chamava de “sobras imperfeitas”. O que é isso? Seria um fazer de contas?
Para nós, herdeiros da cultura moderna, a coisa palpável não é sombra: é uma coisa real!! A polarização existente entre a coisa perfeita e a imperfeita no pensamento do autor supracitado, parecia querer criar dois eternos inimigos. O autor do Fedon não tinha ao que parece, ideia das proporções que seus conceitos clássicos iriam produzir em períodos posteriores. Um outro filósofo, distintamente, viria fazer sérias objeções à referida polarização. Diria que a matéria não deveria ser tão desprezada assim, pois ela detinha seus graus de importância no processo do conhecimento sendo ela a instância base causadora da forma e esta (a instância) determinadora daquela. 
Neste sentido, nota-se que o sujeito que faz objeção à polarização, confere à matéria um estatuto de paternidade estando a forma em estado seminal, e com potência de eclodir-se para fora do útero da consciência como entidade determinadora do mundo. Esse segundo autor estaria por acaso fazendo de conta que a entidade empírica somente teria vida quando a forma fosse eclodida como num processo de revelação de um segredo que estava oculto em eternidades passadas? As cabeças humanas portadoras da potência cognitiva sempre viveram em conflitos de todas as ordens, não somente na era clássica na qual ocorreram os embates e debates referentes à “razão pura”. Os pré-socráticos também viviam com esses mesmos problemas. Uns diziam que o cosmos era produto do ar outros defendiam que o fogo era o pai da natureza, outros não gostavam dessas posições e diziam que a água era a origem de tudo e (...) era uma bagunça só. 
Com o passar dos tempos, chegamos à era vulgar. A era vulgar foi marcada pelo espalhamento de grupos sectários cada um como num alheamento epistemológico coletivo referente às múltiplas contradições. Um grupinho aqui, outros ali outros acolá e outros ainda nas terras do Ali Babá. Uns diziam e escreviam sobre coisas, outros por não disporem de um pensamento original não tinham o que dizer e, para não ficarem fora do círculo, repetiam o que seus colegas mais íntimos já haviam dito. Diziam a mesma coisa com outras palavras, mas a tal da mesma estrutura estava lá. (Observem que a lei da Maria vai “KAS” outras é coisa antiga) Nunca vi o pórtico também não importa. Mas, ao menos pelo que se encontra registrado, lá vivia num blá, blá, blá um cabeção, tal de Zé. O pai dele queria que o Zezinho fosse um pensador. 
De posse de uns poucos tratados de Sócrates os leva para o filho o que muitos chamariam de “preciosidades”. O Zezinho coitado meio desconfiado pega o material e pergunta o que é isso papai? Pelo que o papai lhe respondeu “pra fazer de conta que você é um pensador!!”. O Zezinho irritado com a ironia do pai fala em vós áspera: “Um dia o Sr. Irá ouvir o meu nome sendo expressado por várias gerações”. O pai meneando a cabeça resmungava: “Zé não!! Zé não!! Zé não dá!!!”. O Zé confiante dizia “dá sim, dá sim, dá sim!” (Caros amigos leitores essa conversa do pai com seu filho não se encontra nos registros oficiais da história salvo o pai, o filho, o pórtico e os tratados de Sócrates). Pois bem, o Zé literalmente pôs a cara nos “livros” mais tarde, teve contato com outras correntes distintas do pensamento e finalmente convicto de que possuía bagagem o suficiente funda uma escola de filosofia natural. Essa escola deu o que falar. Sobretudo na sua versão tardia a qual unificou radicalmente os objetos que foram radicalmente polarizados pelo criador da República do período clássico. 
Os membros dessa escola viviam a dizer que os sonhos do criador da República haviam se realizado realmente!!! Certamente Sêneca, ou um Epíteto e por que não dizer um monarca chefe de estado como o Tal do Marcus Aurélio que foi ao que parece um membro ativo dessa escola. Na posição de imperador, procurava perseguir os grupos sectários que mantinham posições distintas da dele. Por ali circulava rumores de que um grupo de nazarenos estava perturbando a “ordem”. Os nazarenos ainda estavam em processo de desenvolvimento, e Marcus empreende uma batalha contra esse “humilde grupo”. Mas na espreita estava o tal do Justino que veio fazer justiça. Era um nobre filho de nobres, perambulou pelas escolas da vida durante muitos anos na esperança de achar a verdade, mas todas faziam de conta de que pronunciavam “o inacabado” (Como ficará o rosto do Brasil com Dilma Rousseff?). Como resolver esse dilema? Toda sua pomposidade e intelectualidade manifestavam-se como excessos que não atendiam seus verdadeiros anseios mais profundos. Justino não queria superficialidades desejava verdades autênticas que fossem verdades do não fazer de contas.

Num belo dia, um homem da terceira idade lhe apresenta em secreto algo novo, o que mudaria radicalmente suas posições. Depois de ouvir o “anjo na praia”, uma luz lhe vem ao encontro caindo-lhe as escamas dos olhos. Ufa!! Finalmente encontrei o que tanto procurava. Como um importante membro da sociedade faz um balanço de tudo o que aprendera durante suas pesquisas acadêmicas, compara-as com a novidade e conclui: “Não restam dúvidas de que esta aqui não é um faz de contas como as demais; vou levá-la ao conhecimento do imperador”.
Não temos aí meus caros leitores o resultado de um processo dialético/conceitual. O que temos é o surgimento de uma mensagem do céu que veio romper com os modos da metafísica geral de ver a existência dos sentidos. Dizendo em outros termos, o que a radical polarização não pode fazer e a radical unificação não pode levar adiante a revelação especial fez com incomparável brilhantismo. Portanto, longe de ser um mero fazer de contas, as boas novas vieram fazer um homem novo no âmbito da realidade. Não era utopia, não era sonhos e sim um modo autêntico de gerar um new man. Não foi por acaso que Cristo disse a Nicodemos: é necessário nascer de novo se quiseres entrar no reino de Deus. E para viver nesse reino, uma sincera mudança de vida se faz necessário. Isto é, mudança mental e principalmente mudança comportamental.

A unificação feita pela escola do Zé teria escorregado no fazer de contas de que o físico e o metafísico seriam entidades do mesmo ser? Vamos falar só um pouquinho sobre esse tal de fazer de conta. Pilatos pergunta o que é a verdade. Alguém muito esperto e eficiente responderia que verdade é aquilo que não é mentira muito óbvio, vocês não acham? Você consegue voltar no tempo? Se puder de uma espiadinha no conceito de verdade e mentira na visão dos antigos gregos. Era arte? Era um meio pragmático de se garantir a vida? Você teria coragem de dizer que a mentira era um pecado capital? Ou talvez essa última fosse um conceito medieval? Se sim, você sabe por quê? Bem, deixa isso “pra” lá não vamos ficar na Grécia, e nem na idade média, até porque estamos no século XXI certo? Quando cubro meu corpo com tecidos sejam eles feitos de plástico, couro, algodão, seda estou teatralizando meu corpo nu. Quero dizer, ao proceder assim, manifesto aquilo que não sou de fato, quando corto meus cabelos e faço a barba e as unhas, cumpro com as regras e os ditames convencionais de um cidadão civilizado e educado.
Os fazeres de contas que me são dados, me fazem ter formas e características que suprimem meu ego antropológico e  me levam ser um eterno faz de conta. Isso significa que somos todos mentirosos, falsos, camaleões descarados? De modo algum!! Vivemos num ambiente das contingências no qual o positivo e o negativo gozam de poderes igualitários no que dizem respeito às suas potências de concretização. Em algum momento vou Ter dor de dente e aí? Vou sofrer com a dor até ela resolver ir embora por si mesma ou vou buscar um medicamento para meu alívio?
Um médico cardiologista sabe que seu paciente tem 99% de chance de vir a óbito, mas por uma intervenção cirúrgica a probabilidade negativa cai para 1%. Isso seria um ato de fazer de conta? Se nós temos a nossa disposição os meios pragmáticos no sentido de viabilizar uma vida mais plausível para uma maior quantidade de pessoas possível por que não fazê-lo? Ou vamos usar medidas pragmáticas disfarçadas de justiça no sentido de massacrar ainda mais as pessoas mantendo-as na ignorância da “caverna”? Será que nossa crítica não esconde o medo de que quem está lá em baixo suba para cá? Como você interpretaria o versículo “Eis que o homem é como um de nós, pois conhece o bem e o mal”? E a razão da expulsão do jardim?
Vamos usar a medida de Paulo: “Tudo o que é amável, de boa fama, havendo algum louvor nisso pensai”; “Me fiz de louco para ganhar os loucos, de fraco para ganhar os fracos, de Judeu para ganhar os Judeus, de grego para ganhar os gregos fiz-me de tudo para com todos na esperança de salvar alguns”. Essa postura de Paulo era um faz de conta? Quaisquer que sejam as respostas dessa minha última pergunta (cá entre nós meus amigos, que belo faz de conta Heim!!! Kkkkkkkkkkkk). É verdade, pastores, membros, médicos, advogados, professores, alunos, escritores de livros vivem fazendo de conta, Mas também é verdade que, pessoas neste mundo ainda se esforçam de modo significativo mesmo que por vias pragmáticas na esperança de uma sociedade mais justa e, portanto mais feliz.

“Sei que não vou consertar o mundo, mas não me resignarei quanto à minha missão de torná-lo um pouquinho melhor”. Samuel Buel Escritor, Livre pensador.


Maranata. Ora Vem Senhor Jesus!
Deus abençoe a todos.

5 comentários:

disse...

Os fazeres de contas que me são dados, me fazem ter formas e características que suprimem meu ego antropológico e me levam ser um eterno faz de conta. Isso significa que somos todos mentirosos, falsos, camaleões descarados?

Lembrei-me do meu querido irmão Alberto.
Hoje vivemos a fase do "faz de conta". Assim, tenho decorado o que, em tempos idos, extrai de um artigo, conto ou ilustração – não me lembro mais:
- Profissionais fazem de conta que são competentes; governantes (atuais e futuros) fazem de conta que se preocupam com o povo, e o povo faz de conta que acredita;
- Pais fazem de conta que educam; professores fazem de conta que ensinam, e alunos fazem de conta que aprendem;
- Pessoas fazem de conta que são honestas; líderes evangélicos fazem de conta que são "ungidos" de Deus e fiéis fazem de conta que têm fé, e que crêem;
- Doentes fazem de conta que têm saúde; criminosos fazem de conta que são dignos e honrados, e a justiça faz de conta que é imparcial.

Só o Evangelho não é um faz de conta.
Que Deus nos abençoe.

Pastor Guedes disse...

Rô,

Bem lembrado. Sabe que eu nem tinha lembrado daquele texto do Alberto?!rsrsrsrsrs

Bom seria se o Alberto entrasse aqui para comentar e derramasse toda a sua sabedoria para nossa edificação.

Abraço.
No Amor de Cristo!

Marcello de Oliveira disse...

Shalom!

A filosofia é a busca pela verdade. Em Jesus esta busca termina.

Abraços, Pr Marcello

P.s>> Sumiu do meu site ?!

Pastor Guedes disse...

Caro Pr. Marcello Oliveira,

Gostei de suas poucas palavras dizendo grandes verdades.

Não sumi não, apenas não tenho deixado comentários. Seu site é um dos meus preferidos.

Forte Abraço.
No Amor de Cristo!

Anônimo disse...

isso tem aver com ilumination ? adoro filosofia mas não entendi muita coisa, tbm como faço para fala com filosofos ,